Dá para prevenir a demência? O que a ciência diz
Muita gente acompanha um pai, uma mãe ou um avô com perda de memória e, em algum momento, se pergunta: "isso vai acontecer comigo também?".
É uma preocupação legítima. E existe uma resposta que traz esperança, sem prometer o que não pode ser prometido: parte do risco de demência está ligada a fatores que podemos cuidar.
Em julho de 2024, a Comissão Lancet sobre prevenção, intervenção e cuidado da demência (Livingston e colaboradores, publicada na revista The Lancet) atualizou a sua lista de fatores de risco modificáveis. Agora são 14 fatores, que juntos podem estar ligados a até 45% dos casos de demência.
Os 14 fatores de risco para demência
Segundo a Comissão Lancet 2024, estes são os fatores de risco modificáveis:
- baixa escolaridade;
- perda auditiva;
- hipertensão (pressão alta);
- tabagismo;
- obesidade;
- depressão;
- sedentarismo;
- diabetes;
- consumo excessivo de álcool;
- traumatismo craniano;
- poluição do ar;
- isolamento social;
- colesterol LDL alto na meia-idade (incluído em 2024);
- perda de visão não tratada (incluída em 2024).
Repare que vários deles não são "do cérebro" à primeira vista. Pressão, colesterol, diabetes, audição e visão também fazem parte da saúde cerebral. Cuidar do corpo é cuidar da mente.
Fatores que aparecem em diferentes fases da vida
A Comissão Lancet olha para esses fatores ao longo de toda a vida. A escolaridade se relaciona com a infância e a juventude. Pressão alta, colesterol, diabetes, obesidade, audição, consumo de álcool e cigarro ganham peso na vida adulta e na meia-idade. O isolamento social e a perda de visão ficam especialmente relevantes na velhice.
Isso traz uma mensagem importante: não existe uma idade certa para começar. Quem tem 30 anos pode cuidar da pressão e da audição. Quem tem 75 pode cuidar dos vínculos, da visão e da atividade física. Cada fase tem o seu espaço de cuidado.
O que significa "até 45%" (e o que não significa)
Esse número é importante, mas precisa ser lido com cuidado.
Ele é uma estimativa populacional. Quer dizer que, se esses fatores fossem eliminados em toda a população, uma parte expressiva dos casos poderia ser evitada ou adiada. Ele não é uma promessa individual de que, cuidando de tudo, uma pessoa específica não terá demência.
Também significa que a outra parte do risco está ligada a fatores que não controlamos, como idade e genética. Por isso, ninguém deve se culpar, nem culpar um familiar, por um diagnóstico.
Outro ponto: muitos desses fatores dependem de condições que não são só individuais. Acesso a escola, a consultas, a aparelho auditivo, a óculos, a espaços para atividade física e até a qualidade do ar da cidade onde a pessoa vive. Por isso, a prevenção da demência é também um tema de saúde pública, e não apenas de força de vontade.
Como cuidar do cérebro na prática
Não é preciso transformar a vida de uma vez. Pequenas mudanças, mantidas com constância, são mais realistas. Algumas ideias ligadas aos fatores da lista:
Cuide da audição e da visão
Faça avaliações com otorrinolaringologista, fonoaudiólogo e oftalmologista. Se houver indicação de aparelho auditivo ou óculos, use. Ouvir e enxergar bem mantém você conectada(o) com as pessoas e com o mundo.
Acompanhe pressão, glicose e colesterol
Consultas e exames regulares, seguindo as orientações do seu médico, ajudam a manter esses fatores sob controle.
Movimente-se
Escolha uma atividade física que caiba na sua rotina e que você goste, com orientação profissional quando necessário. Caminhar, dançar, nadar ou fazer hidroginástica são exemplos. O melhor exercício costuma ser aquele que você consegue manter.
Mantenha vínculos
Conversar, participar de grupos, encontrar amigos e familiares. O contato social é um estímulo importante para o cérebro. Para quem mora longe da família, inclusive no exterior, chamadas de vídeo frequentes e atividades em grupo na própria cidade ajudam a manter essa rede viva.
Continue aprendendo
A escolaridade aparece na lista, e aprender coisas novas ao longo da vida, como um idioma, um instrumento ou um curso, também é uma forma de manter a mente ativa.
Cuide da saúde emocional
A depressão está entre os fatores de risco. Buscar ajuda quando o humor muda é também uma forma de cuidar do cérebro. A terapia cognitivo-comportamental é uma das abordagens que pode ajudar.
Proteja a cabeça e reduza álcool e cigarro
Use capacete e cinto de segurança, previna quedas em casa e, se fumar ou beber em excesso, procure apoio para mudar esses hábitos.
Onde entra a avaliação neuropsicológica
Prevenção também envolve acompanhar. Quando surgem queixas de memória, atenção ou organização, a avaliação neuropsicológica ajuda a entender o que está acontecendo e se há causas que podem ser tratadas.
Nem todo esquecimento é motivo de preocupação. Para entender a diferença, leia esquecimento: quando é normal e quando se preocupar.
Quando há indicação, a avaliação também cria uma referência do funcionamento cognitivo daquele momento, útil para comparações futuras e para orientar a família e outros profissionais de saúde. Saiba mais sobre a avaliação neuropsicológica em idosos.
Cuidado com o cérebro, de onde você estiver
A Monica Sarah Salomon é psicóloga pós-graduada em Neuropsicologia e atende adultos e idosos 100% online, em português, no Brasil ou em qualquer país. O formato online facilita para quem tem dificuldade de deslocamento e para famílias que vivem longe umas das outras.
Se você ou alguém da sua família tem notado mudanças na memória, conheça como funciona o agendamento e tire suas dúvidas na primeira consulta.
