Hiperfoco: quando o tempo some
Você começa a pesquisar um assunto "só por cinco minutos" e, quando olha o relógio, já se passaram quatro horas. Esqueceu de comer, de responder mensagens, de levantar da cadeira. Ao mesmo tempo, aquela tarefa simples do trabalho continua parada há uma semana.
Muita gente chama essa experiência de hiperfoco. O termo ficou popular nas redes sociais, principalmente em conteúdos sobre TDAH e autismo. Mas o que ele significa de fato? E o que ele diz, ou não diz, sobre um diagnóstico?
O que é hiperfoco
Hiperfoco é uma forma popular de descrever um estado de atenção muito intensa e prolongada em uma atividade, a ponto de a pessoa perder a noção do tempo e ter dificuldade de se desligar, mesmo quando precisa.
É comum que aconteça com atividades que despertam muito interesse, novidade ou desafio: um jogo, um projeto pessoal, uma pesquisa, uma série, um hobby.
Durante o hiperfoco, a pessoa pode não ouvir quando chamam seu nome, ignorar a fome ou o cansaço e sentir irritação quando é interrompida. Ao sair desse estado, é comum sentir um certo "choque" ao perceber quanto tempo passou.
Hiperfoco no TDAH: a atenção que não obedece
Pode parecer contraditório: se o TDAH envolve dificuldade de atenção, como alguém com TDAH consegue se concentrar por horas?
Uma forma de entender é pensar que, no TDAH, a questão não é exatamente "falta" de atenção, e sim dificuldade em regular a atenção. Ou seja, direcioná-la para onde ela é necessária, mantê-la ali e mudá-la de lugar quando preciso.
Por isso, uma mesma pessoa pode ter muita dificuldade com tarefas pouco estimulantes e, ao mesmo tempo, mergulhar em algo interessante sem conseguir parar. Os dois lados fazem parte da mesma dificuldade de regulação.
Na prática, isso pode trazer prejuízos: perder compromissos, deixar responsabilidades de lado ou se exaurir depois de longos períodos sem pausa. Saiba mais sobre a investigação em avaliação de TDAH em adultos.
Um exemplo ilustrativo: uma pessoa decide reorganizar uma planilha no trabalho e passa a tarde inteira nela, com dedicação total. Enquanto isso, a reunião das três é esquecida e o relatório com prazo para o dia seguinte nem foi aberto. Para quem vê de fora, parece "falta de prioridade". Para quem vive, é a sensação de não conseguir escolher onde a atenção vai ficar.
O lado positivo também existe
O hiperfoco pode render trabalhos muito bem-feitos, aprendizado rápido e criatividade. O objetivo não é eliminá-lo, e sim conseguir usá-lo a seu favor: perceber quando ele começa, combinar pausas e proteger os compromissos que não podem ser esquecidos.
Hiperfoco no autismo e interesses intensos
No autismo, o que muitas vezes é chamado de hiperfoco costuma estar ligado aos interesses intensos e específicos. O DSM-5-TR descreve, entre os padrões restritos e repetitivos do TEA, interesses muito focados ou intensos, além de outras características.
Para muitas pessoas autistas, esses interesses são fonte de prazer, conforto, regulação e conhecimento profundo. Eles podem durar anos e fazer parte da identidade da pessoa. Não são um "defeito" a ser corrigido, nem um superpoder: são uma parte do funcionamento de cada um.
A diferença em relação ao TDAH não está só na intensidade, mas no conjunto. No autismo, os interesses aparecem junto com outras características, como diferenças na comunicação e na interação social. Se essa dúvida faz sentido para você, leia sinais de autismo em adultos que justificam uma avaliação.
Hiperfoco ou apenas um interesse intenso?
Todo mundo pode se envolver profundamente com algo que ama. Um músico ensaiando, uma pessoa lendo um livro que não consegue largar, alguém montando um quebra-cabeça. Isso, por si só, é uma experiência humana comum.
Alguns pontos ajudam a pensar se vale investigar mais:
- Controle: você consegue interromper a atividade quando precisa, ou isso é muito difícil?
- Impacto: o envolvimento costuma trazer prejuízos, como esquecer compromissos, comer ou dormir?
- Contraste: há uma diferença grande entre o foco em interesses e a dificuldade com tarefas do dia a dia?
- Contexto: existem outras dificuldades persistentes, desde a infância, em atenção, organização, interação social ou sensibilidade a estímulos?
Essas perguntas não fazem diagnóstico. Elas ajudam você a organizar o que observa e a levar essa informação para uma conversa com uma profissional.
E quando as duas coisas aparecem juntas?
Algumas pessoas reconhecem em si tanto a dificuldade de regular a atenção quanto interesses intensos e duradouros. Isso pode acontecer porque autismo e TDAH podem coexistir, mas também porque outras condições, como ansiedade ou alterações do humor, influenciam a forma como a atenção funciona. Separar essas possibilidades é parte do trabalho da avaliação.
Também vale lembrar que o hiperfoco pode ficar mais intenso em fases de estresse, quando mergulhar em algo interessante funciona como uma forma de se proteger do que está difícil. Observar em quais momentos ele aparece já traz pistas importantes.
Quando procurar uma avaliação
Se o hiperfoco vem acompanhado de outras dificuldades que afetam o trabalho, os estudos ou os relacionamentos, uma avaliação neuropsicológica pode ajudar a entender o que está acontecendo. Ela investiga atenção, memória, funções executivas e aspectos emocionais e sociais, e considera diferentes hipóteses, inclusive a de autismo e TDAH juntos.
A Monica Sarah Salomon é psicóloga (CRP 12/13557), pós-graduada em Neuropsicologia e em TEA, e atende adultos e idosos 100% online, em português, de qualquer cidade ou país. Se fez sentido para você, veja como agendar.
